Eu quase não vim. Mas toda vez é a mesma coisa, quando vejo já estou dentro do elevador, itens que não podem faltar: nervosismo, mãos suando e coração palpitando, até enfim chegar ao décimo andar e eu ir em direção a seu apartamento. Mas porque insisto tanto? Eu não deveria voltar aqui depois da última noite, mas a carne é fraca, e quando vejo já me entreguei. Porque você sempre tem algum método de me fazer acreditar em tudo que você diz? Está cada vez mais difícil manter meu papel de mulher determinada e autoritária. E o culpado é você.
Eu voltei, estou na porta da sua casa, com um vinho e um cd de Bon Jovi, como se você já não tivesse todos, esperando você ouvir a campainha tocar pela segunda vez e vir abrir a porta, hoje teria que ser uma noite diferente, mas estou vendo que vai ser a mesma coisa de sempre. Desentendimentos, brigas e discussões, até quando? Ah, enfim abriu a porta, já estava prestes a voltar e esperar o elevador nesse andar frio e assustador, afinal é tarde da noite e qualquer cuidado é pouco hoje em dia no Rio de Janeiro.
Imaginei você me dando um beijo no rosto e me pedindo pra entrar, com a mesa posta, sobre ela massas italianas e taças de vinho, eu entraria, mal daria tempo de jogar minha bolsa no sofá e você me puxava para dar um beijo, daquele de cinema que nunca esquecemos. Eu e meus sonhos nas horas erradas. "Não estou pra brigas hoje", foi a única coisa que ele me disse desde quando abriu a porta, eu entrei mesmo sem ele me convidar, coloquei o vinho sobre a mesa bagunçada do café da manhã, coloquei minha bolsa encostada no sofá e pedi pra ele sentar, a noite passada tinha sido preocupante, quase sempre brigamos por motivos bobos, as vezes ele não entende algo e passa uma mensagem errada pra mim ou vice-versa, dessa vez ia ser diferente, pelo menos eu ia tentar.
Pedi que me escutasse, a única coisa que eu estava precisando no momento era carinho e atenção, o cuidado eu nem insistia mais. Eu estava falando o quanto acho que essa relação não tem futuro, ou pelo menos estava tentando, aqueles cabelos loiros molhados realçando seus olhos azuis não me deixavam concentrar, eu perdia o rumo da própria frase quando olhava aqueles lábios carnudos perto dos meus, e mais uma vez, como todas as outras, não resisti. Passaram-se alguns minutos no sofá, eu levantei, peguei o cd e coloquei para tocar, "Always" me lembrava tantos momentos bons, que eu poderia ficar ali por horas escutando a mesma música, do lado do cara que eu mais desejava com um vinho na mão e nem me importaria. Foram horas de loucuras, talvez as melhores horas de todos os meus 19 anos.
Amanheceu. E mais uma vez levantei e ele não estava, eu fiquei arrasada como todas as outras vezes, só um beijo na testa e um bilhetinho de bom dia, era tudo o que eu precisava. Não costumo pedir isso, sempre fui fria a ponto de não demonstrar o que estava sentindo ou querendo, mas atenção faz falta. Eu sempre vou para aquela casa com a intenção de terminar nosso relacionamento, terminar o que nem começou ainda, podemos dizer, mas ele sempre faz algo que me faz mudar de ideia, ou melhor nem tempo pra pensar em mudar de ideia eu tenho. Agora já estou vestida, saindo da sua casa após deixar um bilhetinho na geladeira dizendo: "20h na minha casa, com vinhos e caixas de bombom, hoje terás uma surpresa!"
— Chanel nº 5
Posted by Larissa Rocha. Posted In : desejo